O Hobbit – A Desolação de Smaug: Análise


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Muito bem, nerds! Depois de um valoroso puxão de orelha do editor, estou de volta, agora para falar de um dos filmes mais esperados do ano. Vamos a ele?

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Análise: O Hobbit – A Desolação de Smaug

Peter Jackson já mostrou sua competência ao adaptar de forma magistral O Senhor dos Anéis. Tanto que conquistou vários prêmios com sua trilogia, além de transformar a Nova Zelândia num grande estúdio de Cinema e um dos pontos turísticos mais procurados do mundo. Porém, todo esse sucesso parece ter causado um grande problema ao cineasta: a megalomania. Além das gigantescas edições estendidas da trilogia (todas excelentes, chegando inclusive a melhorar o segundo filme, As Duas Torres), ele demonstrou tal característica no ótimo King Kong (que bem poderia ter uns 20 minutos a menos), no sofrível Um Olhar do Paraíso, no regular O Hobbit – Uma Jornada Inesperada e volta a incorrer no erro em O Hobbit – A Desolação de Smaug.

O filme tem início em (mais!) um flashback, que mostra como Gandalf (Sir Ian Mckellen) conheceu Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) na cidadela de Bri, na estalagem O Pônei Saltitante. Depois disso voltamos a encontrar Bilbo (Martin Freeman) e toda a comitiva dos anões, que seguem em sua jornada para retomar Erebor das garras do terrível dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbatch) e continuam em fuga do bando do orc pálido Azog (Manu Bennet). Nessa fuga, o grupo vai parar na casa de Beorn (Mikael Persbrandt), um transmorfo conhecido de Gandalf que os orienta a seguir caminho pela Floresta das Trevas, reino de Thranduil (Lee Pace), pai de Legolas (Orlando Bloom).

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O roteiro é demasiadamente esticado, como consequência do fato de ter uma história relativamente simples esticada para preencher três filmes de três horas de duração. Há vários trechos completamente desnecessários, ou que acrescentam pouca coisa à trama, como a própria passagem pela casa de Beorn, vários diálogos expositivos, além de várias pontas soltas que despertam receio quanto à sua amarração no terceiro filme.

E prossegue irregular, com alternâncias constantes. Ao mesmo tempo em que confere profundidade a Thranduil, ao mostrar um detalhe importante de seu passado, exagera em diálogos arrastados envolvendo a elfa Tauriel (Evangeline Lilly) e Legolas, ou com os anões. As participações de Christopher Lee e Cate Blanchet, desnecessárias no primeiro, felizmente, foram descartadas.

Já os anões são melhor trabalhados que no primeiro episódio, com vários deles exercendo funções importantes, especialmente quando chegam a Erebor, com destaque para o “fofinho” Bombur e o arqueiro Kili (que ter muito mais do que um anão comum).

Há ainda a introdução de personagens importantes, como o Necromante (também com a voz de Cumberbatch), o orc guerreiro Bolg (com um visual que lembra muito o mascote Eddie, do Iron Maiden), os humanos Bard (Luke Evans) e o Mestre da Cidade do Lago (Stephen Fry) e o dragão Smaug.

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E o dragão Smaug torna-se um ótimo substituto para Gollum no tocante a criaturas digitais. A textura de suas escamas, a produção do fogo em seu peito, o olhar expressivo… E tudo isso coroado pela voz marcante de Benedict Cumberbatch, que combina bem com a postura orgulhosa da criatura.

As demais criaturas digitais, como as aranhas gigantes e os wargs estão bem exectudas. Infelizmente, essa competência se esvai nas cenas em que há a necessidade de “dublês” digitais, em que o seu uso fica exageradamente perceptível.

O design de produção continua sendo um ponto forte dos realizadores. A direção de arte constrói ambientes excelentes, como a cidade de Thranduil, a floresta repleta de teias de aranhas gigantes, o interior da casa de Beorn, ou a Cidade do Lago (ainda que esta apareça repetidamente em establishing shots – planos que ilustram o exterior de onde a história passará a ocorrer). A grandiosidade de Erebor, e sua arquitetura monumental degradada pelo tempo, repleta dos tesouros de Smaug, completam o trabalho primoroso da equipe.

A escolha, acertada, de uma paleta de cores mais sombria em alguns momentos, como no interior da Montanha da Solidão, na cena do interrogatório de um orc e na fortaleza de Dol Guldur, é prejudicada pela tecnologia 3D, uma vez que os óculos escurecem bastante a visão. Além disso, há pouquíssimos momentos que justifiquem o seu uso dentro da narrativa, ficando limitado a objetos atirados em direção à câmera.

Se em O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, Richard Armitage merecia elogios, aqui em O Hobbit – A Desolação de Smaug ele caminha passos tortuosos. Nos momentos em que precisa se impor, por seu título de Rei, ou como um guerreiro valoroso, ele se sai bem. Porém, em todos os outros momentos chega a soar aborrecido, sempre de cara feia para todos que discordam de suas ideias ou ordens.

Por outro lado, Martin Freeman se mostra perfeitamente confortável no papel, agregando ainda alívios cômicos em pequenos detalhes, como um pé levantado, uma mão na cintura, ou se abaixando mesmo quando isso não funcionará. Além disso, ele também é competente ao retratar a influência que o Um Anel começa a exercer sobre ele.

Ian Mckellen tem boa parte de seu trabalho prejudicado pelo roteiro e pela direção (o talento do ator é incontestável), com Gandalf constantemente gritando, ou dando conselhos arqueando uma das sobrancelhas.

Na raça dos elfos, Orlando Bloom compensa sua conhecida limitação com seu carisma e a ligação afetiva deixada pelo personagem em O Senhor dos Anéis. Lee Pace constrói um rei ligeiramente afetado, porém firme e experiente em conflitos políticos. Evangeline Lilly completa o trio principal com o vigor necessário para uma grande guerreira.

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Completando a mise-en-scéne, a maquiagem e o figurino terminam de completar a verossimilhança da Terra Média. Os trajes dos Elfos e dos Anões reforçam a sua natureza, ao passo que a maquiagem cria aqueles seres com perfeição, especialmente os Orcs e Beorn.

Peter Jackson, quando não está preocupado em mostrar as belas paisagens da nova Zelândia ou perdendo tempo com diálogos arrastados e um excesso de planos fechados, mostra excelente construção das cenas, como o efeito das ilusões da floresta no ataque das aranhas, o surgimento de Legolas (com uma divertida citação a Gimli) e o incrível plano sequência na cena dos barris nas corredeiras.

Além disso, ele também cria belos planos, como quando Bilbo sobe ao topo das árvores cercado de borboletas azuis, os anões perfilados na entrada de Erebor ou Thorin lado a lado com uma gigantesca de um antepassado.

Infelizmente, o diretor não se conforma em apenas executar um bom trabalho. Ele também se esforça em fazer citações desnecessárias a trabalhos anteriores, como alguém se equilibrando na boca do dragão (como Naomi Watts em King Kong) e as dezenas de cenas repetidas da trilogia, não apenas pelo visual, como também em alguns diálogos.

Porém, quem mais deixa a desejar nisso tudo é Howard Shore. Ainda que a trilha sonora tenha bons momentos, como no início da cena das corredeiras (lembrando as aventuras dos anos 30), ele não consegue criar temas marcantes para Thranduil, a Cidade do Lago e, principalmente, para Smaug.

Ainda que execute um trabalho melhor que o episódio anterior, não foi dessa vez que Peter Jackson conseguiu atingir o brilhantismo da trilogia original. Só nos resta agora torcer para que ele consiga amarrar todas as pontas que deixou propositalmente soltas e esperar que a última jornada à Terra-Média compense a viagem demorada a que fomos submetidos até agora.