Nelson Mandela morreu. Eis o seu legado. 1


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igor_queiroz_nelson_mandela_01.2013.12.27E foi no dia 05 de Dezembro de 2013 que o mundo dos vivos perdeu Nelson Mandela, um dos maiores exemplares de ser humano que esse planeta com pouco mais de 4 bilhões de anos (xô criacionistas, vocês não merecem falar comigo nem com meu anjo) já teve o prazer de gerar. Mas quem foi Nelson Mandela? O que Nelson Mandela representou para humanidade? Se você é de outro mundo e não tem nem as respostas para essas perguntas ou para A Pergunta Fundamental, fica aqui com a gente e delicie-se com o conteúdo nerd do mais alto garbo sobre esse grande terráqueo.

Nelson Mandela: Um pouco da sua história de lutas e “achievements”

Contrariando todo o senso comum e a sabedoria popular, Nelson Rolihlahla Mandela (aliás, desafio você a pronunciar o nome do meio sem parecer ter retardo mental), foi não só apenas um advogado, mas também um político honesto e íntegro. Nascido no dia 18 de Julho de 1918, em uma vila chamada Mvezo na atual província sul-africana de Cabo Leste, Mandela veio de uma família de nobreza tribal, e fez parte do povo Tembu e do clã Madiba. Madiba, aliás, era como Nelson Mandela costumeiramente era chamado pelos seus próximos. Rolihlahla Dalibhunga Mandela é o seu nome de nascimento, que em xhosa (uma das 11 línguas oficiais da África do Sul), esse primeiro nome significa “Agitador”, o que para os mais “believers” teve significado profético.

igor_queiroz_nelson_mandela_02.2013.12.27Aos sete anos, ao frequentar a escola primária próxima a vila de Qunu, Mandela recebe o nome de Nelson em homenagem ao Almirante Horatio Nelson, “presente” esse dado por sua professora, que atendia ao costume de dar nomes ingleses às crianças que frequentavam a escola, percebendo-se aqui a grande influência europeia por conta da colonização do continente Africano. Por fazer parte de uma família tribal, Madiba estava destinado a ser chefe de tribo, mas para sorte do povo da África do Sul, isso não aconteceu.

Avançando um pouco no tempo, chegamos ao momento em que Nelson Mandela é enviado para Fort Hare, a primeira universidade que o jovem Madiba teve contato. Porém, não demorou muito para Mandela desistisse da universidade por questões ideológicas, e por ter aprendido os costumes dos europeus nesse primeiro momento universitário, também não se sentiu confortável em ter um casamento arranjado pelo rei da sua tribo, o que o fez fugir para Joanesburgo. E foi graças a essa sucessão de eventos que Madiba se gradua por correspondência em Artes, para logo após se graduar em direito pela Universidade de Witwatersrand. Junto a Oliver Tambo, seu amigo de universidade ainda da época de Fort Hare, forma o primeiro escritório de advocacia negro do país, e foi com a vivência jurídica que Mandela aprendeu a brutal discrepância entre como os direitos dos brancos e negros eram tratados na África do Sul.

E assim nasceu o revolucionário Nelson Mandela.

Não muito depois de perceber o problema das questões raciais na África do Sul, Mandela ingressa no CNA (Congresso Nacional Africano), com o intuito de combater o preconceito enraizado em seu país. No ano de 1949, o governo legaliza o regime segregacionista denominado apartheid (lembram das aulas de história?), lembrando que o governo desse momento obviamente era governado pela minoria branca do Partido Nacional.

Em 1952, Nelson Mandela já era presidente do CNA, e foi nesse mesmo ano que promoveu a Campanha de Desafio, campanha essa que ia contra as leis racistas e injustas direcionadas a população negra. Uma das ações dessa campanha foi o convite do próprio CNA a todos os negros do país frequentarem espaços reservados aos brancos, como correios, escritórios públicos e banheiros. Isso fez com que Mandela fosse preso junto ao seu companheiro de luta indiano, Yusuf Cachalia. Essa prisão foi de apenas dois dias, mas ela marcou a primeira de outras tantas que viriam pela frente. No ano de 1953 Mandela toma uma postura mais combativa e menos pacifista, chegando a declarar que os tempos de resistência passiva haviam passado, mas ainda assim o CNA opta pela diretiva da não-violência.

Bem, essa ideologia de não-violência durou até o ano de 1960, quando uma barbárie que ficou conhecida como o Massacre de Sharpeville impulsionou o CNA a adotar uma resistência armada, formando a Lança de uma Nação no ano de 1961, liderada pelo próprio Nelson Mandela. No entanto, é extremamente necessário lembrar que esse movimento não tinha o intuito de militarizar a política, mas sim de ser um braço militar totalmente subordinado as decisões de um órgão político central. Nesse momento é válido dizer que Mandela já estaria em seu segundo casamento e em uma posição de clandestinidade.

Nelson Mandela: Julgado e condenado

igor_queiroz_nelson_mandela_03.2013.12.27Durante o ano de 1962, Nelson Mandela percorre por vários países do continente africano para obter conhecimentos de guerra e guerrilha, ganhando da imprensa nesse período o apelido de Pimpinela Negro em alusão ao personagem fictício Pimpinela Escarlate, um personagem criado pela baronesa Orczy (Se você imaginou essa baronesa como uma Orc, bem vindo ao clube, senão, parabéns, você é um ser humano normal). Após alguns meses de viagem e aquisição de conhecimentos de guerra ,ainda no ano de 1962, Mandela retorna para a África do Sul, quando é capturado e condenado inicialmente a 5 anos de prisão.

Foi então no ano de 1963 que a polícia invadiu um esconderijo situado no bairro de Rivonia em Joanesburgo, onde Nelson Mandela estivera em seu tempo como clandestino. Lá encontraram documentos que comprometeriam ainda mais o jovem rebelde. Foi nesse mesmo ano e no seu seguinte que ocorreu o chamado Julgamento de Rivonia, onde Mandela e outros líderes da Aliança do Congresso foram acusados de sabotagem e condenados por seus crimes. Nelson Mandela então declarou ao tribunal que “aquilo era um julgamento das aspirações do povo africano”, e falou por quatro horas concluindo a sua defesa com o emocionante discurso que se segue:

Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.

Após ser condenado à prisão perpétua, Nelson Mandela é enviado para a prisão da ilha Robben, onde fica isolado na cela de número 466/64, número esse que fez com que Mandela recebesse a alcunha de prisioneiro 46664. Durante o seu longo tempo encarcerado, a África do Sul passou por várias mudanças, mas poucas delas de impacto positivo para o povo africano. Uma companheira de luta de Mandela chamada Ruth First é assassinada pelo regime com uma carta-bomba. Aprisionado, Nelson Mandela percebeu que precisava aprender a língua e a cultura africâner. Ele e seus colegas foram transferidos de prisões algumas vezes até se instalarem em uma de segurança mínima, chamada Prisão de Victor Verster, onde passou a ter uma qualidade de vida consideravelmente melhor do que as outras prisões.

Ainda em seu tempo de aprisionado, Mandela conseguiu alguns grandes feitos, como o de ter recebido o título de Doutor em Direito pelo City College de Nova Iorque, título esse recebido como honraria pelo “compromisso altruísta para com os princípios de liberdade e justiça“. Também recebeu o título de cidadão honorário da cidade grega de Olímpia. No ano de 1984 Nelson Mandela começa o processo de negociação da sua liberdade, porém esse processo se estendeu por longos seis anos, fazendo com que finalmente viesse a ser livre no ano de 1990.

Nelson Mandela: Da liberdade à presidência

igor_queiroz_nelson_mandela_04.2013.12.27Após ser solto no dia 11 de Fevereiro de 1990, Madiba fez a seguinte declaração:

Quando me vi no meio da multidão, alcei o punho direito e estalou um clamor. Não havia podido fazer isso desde há vinte e sete anos, e me invadiu uma sensação de alegria e de força.”

Uma característica que denota a mudança de postura de Mandela pré e pós cárcere, é o fato de que o mesmo não possuía mais discursos inflamados, mas sim conciliadores e voltados a paz entre as raças, o que decepcionou os setores mais radicais. (Qualquer semelhança com a postura do nosso ex presidente Luis Inácio Lula da Silva é mera coincidência — mas é mera mesmo, hein? Não vamos confundir kiwi com banana).

Por ter passado muito tempo preso e consequentemente longe das mudanças do mundo exterior, o impacto ao ver televisões e telefones em aviões foi perceptível. Em Janeiro de 1991 Nelson Mandela é (re)eleito presidente do CNA e passa a fazer várias viagens para vários países (Brasil também estava em seu pacote turístico), mostrando ser um inato estadista.

Foi então no ano de 1993 que Nelson Mandela e Frederik de Klerk, o então presidente da África do Sul, recebem o prêmio Nobel da Paz, celebrando assim a união das duas raças conflitantes na África do Sul. Logo no ano seguinte, em sua primeira eleição democrática, Nelson Mandela venceu nas urnas no dia 28 de Abril de 1994 com 62% dos votos contra apenas 20% do Partido Nacional e 10% dos zulus.

Como símbolo de novos tempos e uma nova era, Madiba muda o hino nacional misturando o hino do CNA com o africanêr. Outra grande mudança do governo nesse mesmo segmento é o da bandeira nacional, que passou a ter tanto as cores da bandeira do CNA quanto a bandeira oficial dos brancos, mais uma mudança com o intuito de promover a união entre as raças.

Em 1996 Nelson Mandela sancionou a primeira Constituição da África do Sul, que passou a vigorar já no ano seguinte. Aliás, uma forma de perceber quão atrasado um país é, é através da data de criação de sua constituição. É só lembrar que a oficial do Brasil foi criada no ano de 1988, apesar de antes já terem sido criadas outras não tão “constitucionais” assim, mesmo que a de 1934 já se mostrasse favorável aos direitos básicos dos cidadãos.

Enfim, o governo de Nelson Mandela não foi apenas flores, tiveram algumas críticas como a de uma ordem de intervenção militar no país africano Lesoto em 1998, país esse que vivia em uma anarquia. Essa atitude foi tida como controversa na época. Ou mesmo o escândalo do caso extra conjugal entre Mandela e Graça Machel (que eventualmente viria a ser a sua terceira esposa). Aqui não é site de fofoca, mas não custa lembrar que Winnie já andava chifrando o finado Madiba e cometendo atrocidades piores, bem antes do mesmo ir para o lado afro-descendente do matrimônio.

No planeta terra jaz um homem chamado Nelson Mandela

igor_queiroz_nelson_mandela_05.2013.12.27E como anunciado no início do texto, infelizmente esse dia 05 de Dezembro de 2013 ficará marcada como o dia da perda de um dos maiores seres humanos da história da humanidade. Como todo ser humano, Mandela era passivo de erros, e assim os cometeu, mas a sua luta contra o gritante preconceito racial que existia na África do Sul ficará gravado nos autos da história . Pessoas como Nelson Mandela deveriam existir aos montes, mas infelizmente isso não acontece de fato. Como “brinquei” na minha conta pessoal do Facebook, fica a frase reflexiva:

Por um mundo mais mais Mandelas e menos Felicianos.

Madiba antes mesmo de sua morte já se juntava a grandes nomes do humanitarismo como Martin Luther King Jr ou Mahatma Gandhi, e sem dúvidas que entre seus erros e acertos ele pode ser considerado um homem vitorioso. Em 1996 Nelson Mandela proferiu a seguinte mensagem:

A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade.

E em seu epitáfio consta o breve texto: “Aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra“, e quem dirá que não?