Análise: Círculo de Fogo (Pacific Rim)


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E aí, Nerds? O que acharam de um dos blockbusters mais esperados do ano? Eu achei animal! Vê aí embaixo porque…

Vencendo com Robôs Gigantes em Círculo de Fogo, ui!

Guillermo Del Toro sempre foi um artista com predileção por criaturas bizarras e histórias envolvendo seres de natureza monstruosa, como visto em Hellboy, O Labirinto do Fauno, Blade II ou A Espinha do Diabo. Além disso, também tem como característica um apuradíssimo estilo visual, apreço por efeitos visuais práticos e um talento acima da média na direção. Tudo isso foi elevado exponencialmente em Círculo de Fogo(Pacific Rim) curiosamente, uma de suas experiências com o maior uso de efeitos visuais digitais.

Desde o início, a Terra está sendo atacada pelos Kaijus, monstros gigantescos de outra dimensão que tem acesso ao nosso planeta através de uma Fenda no fundo do Oceano Pacífico. Em um breve prólogo conhecemos a origem dessas criaturas, a devastação causada por elas e a forma como os humanos conseguiram combatê-los, os Jaegers.

Os Jaegers são robôs gigantes controlados através de Neuroconexões por militares, em pares, altamente treinados e com imenso poder bélico. Porém, com o passar do tempo, eles começaram a ficar ineficazes, pois a frequência dos ataques aumenta em progressão geométrica. Com isso, o programa começa a ser deixado de lado para que haja investimento na construção de grandes muralhas de proteção dos continentes, que também se mostram insuficientes para esse fim.

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Depois de cinco anos sem combater por ficar abalado pela perda em ação de seu parceiro, Raleigh (Charlie Hunnan) é recrutado novamente pelo Marechal Pentecost (Idris Elba) para voltar a atuar com os Jaegers em uma última coalizão. Nessa nova incursão, ele é estudado por Mako Mori (Rinko Kikuchi), que vem passando por intensivos treinamentos para se tornar uma operadora. Paralelamente, os cientistas Newton (Charlie Day) e Gottlieb (Burn Gorman) estudam o comportamento e fisiologia dos Kaijus para encontrar maneiras de derrotá-los.

O roteiro, escrito por Travis Beacham e pelo próprio Del Toro, é enxuto e bem amarrado, explicando bem as motivações dos personagens, sem inflar o elenco com personagens desnecessários, alívios cômicos descartáveis ou diálogos expositivos. O desenvolvimento da trama é orgânico, obedecendo à ordem natural dos acontecimentos, sem atropelos. Também é mostrado o impacto econômico e social que tantos anos de guerra causam na população, chegando, em alguns momentos a fazer referência à crise de 1929 (Como a cena em que há um “recrutamento” de funcionários em um porto).

O aspecto religioso também está presente, como no nome do Marechal Pentecost (Pentecoste é, segundo a Igreja Católica, o momento da aparição do Espírito Santo para os Apóstolos depois da ressurreição de Cristo), o respeito às vontades divinas (em certo ponto alguém fala: “a única coisa que não podemos combater é a vontade de Deus”), ou o fato dos monstros virem de um buraco de fogo no fundo da terra.

As homenagens e citações a outras produções de ação/ficção científica estão presentes por toda a obra, seja nos diálogos como “Não fique tão arrogante, garoto”, seja nos aspectos visuais, como os trajes de alguns funcionários das bases militares bastante semelhantes aos stormtroopers de Star Wars. Também são visíveis referências a Avatar, Top Gun e, mais obviamente, os tokusatsus japoneses, como Changeman, Jaspion e Ultraman.

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Círculo de Fogo certamente estará presente na temporada de premiações por seus aspectos técnicos. A montagem é dinâmica, sem nunca permitir que o ritmo do filme caia, e sempre gerando novas surpresas com o desenrolar da trama, com os eventos sempre numa crescente.

A direção de arte é bastante detalhista, como nas instalações militares. É visível que não há tempo, mão de obra nem recursos para execução de serviços de manutenção, então todos os ambientes, exceto a sala de controles, parecem sempre sujos e enferrujados. Outro aspecto interessante é a preocupação com detalhes nos personagens, como as cicatrizes pelo corpo de Railegh pelo uso da roupa de operação ou as mechas azuladas de Mako.

A fotografia é quase sempre fria, reforçando o sentimento de abandono e desolação, alterando para cores quentes apenas nas cenas de ação, e no escritório do traficante de órgãos de kaijus, Hannibal Chau (Ron Perlman).

Os efeitos visuais estão perfeitos. A escala tanto dos Kaijus quanto dos Jaeger é impressionante. E eles são críveis mesmo nos momentos de combate corpo a corpo à noite, sob a luz de explosões ou sob chuva forte. Grande mérito também para a direção segura de Del Toro. A projeção em 3D reforça a profundidade de algumas cenas, mas prejudica a compreensão do que está se passando na tela em alguns momentos.

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A trilha sonora é um acerto descomunal de Ramin Djawadi, que consegue misturar rock pesado com trechos orquestrados, além de criar um tema que fica na cabeça na saída da sala. Os efeitos sonoros também chamam a atenção pela precisão com que são compostos, reforçando a impressão de peso e de poder daquelas criaturas.

As atuações estão no nível dos aspectos técnicos. Idris Elba tem uma performance marcante. Ele consegue impor respeito apenas com a inflexão da sua voz, sem precisar usar de seu físico avantajado. Algo interessante na sua construção do personagem é a forma como ele mostra estar perdendo peso, com o terno ficando mais frouxo ao longo do tempo.

A química entre Charlie Hunnan e Rinko Kikuchi é convincente e instantânea, coroando o talento de ambos. Assim como a relação de Charlie Day e Brun Gorman que mostram ter talento além de simples alívio cômico (o momento em que Newton é atacado por um dos Kaijus e a decisão que tomam juntos no terceiro ato são pontos altos do filme). Ron Perlman rouba todas as (infelizmente) poucas cenas em que aparece.

Diante de tudo isso, o maior acerto do longa é entregar ao espectador exatamente aquilo que ele espera: cenas de ação épicas, com efeitos visuais inacreditáveis e combates de tirar o fôlego. E coroando tudo isso com uma história atraente e personagens carismáticos.

Nota: 9.0/10