Análise: Cinquenta Tons de Cinza


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Muitas vezes a expectativa a cerca de um filme pode influenciar a nossa experiência. Isso me causou problemas com os últimos longas de Christopher Nolan, por esperar demais, mas também pode causar boas surpresas, como com Questão de Tempo ou até mesmo a comédia nacional Mato Sem Cachorro. Algo parecido ocorreu com este Cinquenta Tons de Cinza. Não que seja bom, longe disso. Mas não se trata de um desastre completo.

O filme, a aguardada adaptação do best-seller homônimo escrito por E.L James, conta a história da estudante de literatura inglesa Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o jovem bilionário Christian Grey (Jamie Dorman). Depois de uma entrevista para o jornal da faculdade, em que Anastasia precisa substituir sua amiga Kate (Eloise Mumford), ela desperta o interesse do rapaz, que faz de tudo para se aproximar e seduzi-la.

Porém, ao contrário do que acontecia em Crepúsculo (as comparações com a “saga” dos vampiros insossos são inevitáveis, principalmente pela origem da autora), aqui ele demonstra razões para que a garota corresponda a suas investidas. Existe uma tentativa de criar um relacionamento, ainda que em vários momentos soe bastante inverossímil. Também é interessante a forma como ele vai despertando o interesse de Anastasia para seu mundo, instigando sua curiosidade até ela não poder aguentar. Isso gera alguns bons momentos, como a discussão do contrato entre submissa e dominador.

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No entanto, assim como as primeiras páginas do material original, que foi só o que tive a capacidade física de ler, apontam, a trama sofre com opções de roteiro sofríveis, que vão desde os diálogos crepusculescosVocê deve ficar longe de mim” e “Eu não sou o homem pra você” à necessidade do protagonista de demonstrar poder e controle sobre SUAS mulheres (sim, elas não são parceiras sexuais/românticas , mas propriedades), sempre perseguindo, distribuindo ordens e determinando com quem elas podem ou não falar e sair.

E isso é o que causa maior estranheza no sucesso da franquia de livros/filmes. E não me refiro ao gosto pelo sadomasoquismo. Se os dois (ou quantos forem os envolvidos) estão de acordo com o que está sendo feito, diz respeito apenas a eles. E a própria Anastasia (a única coisa realmente boa em todo o longa) demonstra total consciência do que está acontecendo a sua volta, sempre impondo limites, e indo até onde se sente bem. Infelizmente não há contrapartida de seu colega de cena, graças à falta de carisma e talento de Jamie Dorman, que parece sempre desconfortável em sua atuação, sem jamais convencer como alguém que é viciado em ter controle em todos os aspectos de sua vida.

Apesar da pobreza de seus personagens, mesmo os secundários, a produção tem alguns bons aspectos técnicos. Uma fotografia eficiente, com uma paleta de cores sempre fria e hermética quando no ambiente de trabalho Grey (com bastante cinza, obviamente) que alterna com eficácia para tons mais quentes nas cenas de sexo. Já o design de produção é falho por exagerar nos símbolos fálicos em cena, como quando Anastasia leva um lápis, com o nome de Grey, à boca, ou quando ele afivela o cinto de segurança dela no helicóptero. A trilha sonora soa genérica e repetitiva, assim como boa parte do desenvolvimento da trama.

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Mesmo se tratando de uma produção cinematográfica menor, com muito mais defeitos que qualidades, tratava-se de um tiro certo nas bilheterias. O que provoca uma discussão bem maior do que a sua qualidade. O grande problema é o fato das mulheres, grande público-alvo desse material, aceitarem e ficarem encantadas e apaixonadas por Christian Grey, ainda que este tenha a oferecer pouco mais do que o binômio materialista beleza e riqueza. Não que tais características não tenham importância, não sejamos hipócritas. Outra discussão acerca da obra é igualmente o interesse feminino.  Porque ainda é tão raro que elas tenham liberdade em demonstrar interesse em projetos que giram em torno de sexo? Será justo que essa escassez seja tão alta a ponto de mesmo um produto com tão baixa qualidade artística venha a se transformar em um sucesso tão grande?

Nota: 5.0/10