Alvorada retumbante


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alvorada retumbante - contos originerds 01 - 2014 03 26Um zunido constante e crescente me tira do estado de repouso. Minha consciência, embora atordoada, busca incansavelmente por todas as funções motoras que me são necessárias. Agora, mais do que nunca. Confesso não lembrar da última vez que tive terra em minha boca e entre os meus dentes, apesar de recordar com clareza da minha mãe falando para suas amigas em seus encontros matinais, sobre como era difícil controlar a minha incontrolável geofagia em meus primeiros anos de vida. No entanto, estou certo de que em nenhuma dessas vezes o fiz com tempero de sangue. Nem mesmo nos treinos mais árduos do meu pelotão, precisei chegar a tal extremo. Percebo agora que nem todo treino do mundo seria capaz de me preparar para esse exato momento.

Em momentos como esse, imagino que seja inevitável se confrontar com questões existencialistas. Nem mesmo os constantes impactos estrondosos ao meu redor são capazes de desviar a minha atenção para o meu eu. Nem mesmo a ausência de uma perna que há pouco fora minha é capaz de me desligar desse instante. O que me restou foi apenas um intervalo de tempo. Apenas um breve e insignificante intervalo de tempo. Um sentimento lúgubre enche o meu peito e minha mente, e nem mesmo tempo tenho para lacrimejar. Poderia colocar a culpa do meu insucesso no meu pai, que tanto me incentivou a me alistar nas forças armadas. Mas mesmo que a culpa dele fosse, de que adiantaria praguejar? Não. Não seria justo nem com meu pobre e austero pai, nem comigo mesmo. O que me fez chegar até aqui foi algo muito menor e mais desprovido de qualquer valor. O que me fez chegar a esse ponto se chama orgulho.

Dezoito anos de uma vida podem lhe conferir o título de maioridade, mas esse mesmo título, quase nunca vem acompanhado da sabedoria que poderia se esperar de alguém teoricamente capaz de selecionar os governadores do seu próprio país. Aos meus dezoito anos, sábio não era bem um adjetivo que pudesse me identificar, e foi a busca do sucesso e da fama dos heróis de guerra que me impulsionaram a seguir carreira militar. Em minha febre juvenil, o vislumbre de voltar vitorioso de uma batalha travada cheia de rajadas de metralhadora, lançamentos de granadas, e todos os artefatos que compõe as belas composições vistas por mim e tantos outros em demasia nos filmes de Hollywood.

Se eu tivesse a oportunidade de escrever para alguém os meus pensamentos que agora vêm à tona, diria com toda a certeza e sinceridade de que não há beleza alguma na guerra. Há sim muita lágrima, sangue e dor. Mas acima de tudo, o que mais vi nessa minha incursão rumo ao caos, foi a mais pura e gritante tolice. Não haviam estratagemas e planos napoleônicos que me convencessem de que todos ali não estavam sendo genuinamente tolos, onde eu, obviamente, também não escapava dessa terrível constatação. Da mais alta a mais baixa patente, todos estavam ali com motivações banais, que eventualmente tomariam suas vidas sem ao menos os darem chance para perceber a tempo o quão equivocados todos estavam.

A medida que o zunido ensurdecedor se esvai, um terrível coral de gritos de dor e clemência vêm à tona. Pobres garotos, assim como eu, despreparados para o derradeiro momento, lutam por uma sobrevivência que não virá. Esses mesmos que há poucos instantes lutavam contra a sobrevivência das forças inimigas. Uma vez ouvi de um hippie na rua, daqueles que pregavam “paz e amor”, que na guerra não haviam heróis. Naquele momento lembro de ter zombado dele e de sua filosofia. Hoje vejo que ele era muito mais sábio do que eu jamais fora. O engraçado dessa história era que ele aparentava ter a minha idade.

Quanto tempo faz que estou aqui deitado, me rastejando em direção a lugar algum? Quantos irmãos de guarnição já pereceram desde o ataque inimigo? Quantos irmãos de espécie eu tirei a vida? Muito antes de tudo isso começar eu já não via mais sentido em tudo isso. Agora, muito menos. No final das contas fico contente por não deixar nenhuma viúva ou filho desamparado, ao passo que me entristece não deixar ninguém para continuar o meu legado. Mas que legado eu deixaria na atual circunstância, senão algumas histórias irrelevantes de garotos como eu, sedentos pela fama e glória?

Está me faltando forças até para respirar. Maldição. Será que ainda estava nutrindo alguma esperança de sair dessa vivo? Isso seria apenas mais uma prova da minha tolice. Nesse estado que me encontro, com a sensação de que todos os ossos do meu corpo foram estraçalhados, só consigo, a duras custas, olhar para frente, tendo a relva como obstáculo natural do meu campo de visão. Ao fundo, pouco a pouco, um enorme clarão se aproxima, e por mais que a minha incomum visão poética insista em dar um significado simbólico a esse evento, a verdade é que o que está acontecendo nada mais é do que o nascer do Sol.

O som dos gritos já quase não consigo ouvir, tampouco o ribombar dos canhões dos tanques de guerra. O que ouço agora, por estar junto ao solo, é uma marcha lenta que se aproxima, quase como se servisse de ampulheta para o tempo que me resta. E o tempo, é de fato tudo o que me resta. Aos poucos a minha consciência se esvai, dando lugar a um vazio aterrorizante, uma sensação gélida e sombria. Uma onda de calafrios me entorpece e me prepara para o fim. Já não sinto dor na perna que me falta, não sinto nem mesmo a perna que ainda possuo. Meus braços nada mais são do que fantasmas, incapazes de mover matéria. Chegar a essa conclusão me levou um esforço mental inacreditável. Imagens da minha família e amigos me bombardeiam cada vez mais forte, junto a uma grandiosa sensação de impotência.

Tento então olhar para o Sol nascente mais uma vez, como quem se despede do único amigo a vista. E mesmo sem enxergar aquele que me impede de ver o Sol em todo o seu esplendor, sei que ele fará o papel do Deus da morte, pondo fim a minha agonia e sofrimento. Balbucio algo ininteligível, talvez com o intuito de conforto. Fecho os olhos. Ouço um clique, um praguejar em uma língua desconhecida, seguido de algo que pode ser entendido como um gargalhar. Ouço, por fim, um disparo. E sinto frio. Sinto muito frio…