Robocop: Análise


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david_arrais_robocop_2014_01.2014.03.10E aí Nerds? Que tal conferir como foi a  incursão de José Padilha em Hollywood?

Robocop: Um mero remake ou uma nova cara para o velho ciborgue?

Em 1987, o diretor holandês Paul Verhoeven estreou em Hollywood com um filme polêmico que marcou gerações. A história do personagem “metade homem, metade máquina, totalmente policial” ganhou o verniz de cult, tornando-se assim intocável na visão de muitos fãs e críticos. Porém, dada a falta de criatividade que aparentemente paira sobre os roteiristas americanos, eis que surgiu a necessidade do remake de Robocop. E o escolhido para trazer o policial do futuro de volta às telas foi o brasileiro José Padilha, que ganhou projeção internacional com Tropa de Elite.

Robocop conta a história do policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) que, junto com seu parceiro Lewis (Michael K. Williams), tenta desmantelar uma quadrilha de traficantes de drogas, liderada por Antoine Vallon (Patrick Garrow). No entanto, devido à ação de colegas corruptos, ele é quase morto em um atentado à bomba. Isso vai de encontro aos planos do empresário Raymond Sellars (Michael Keaton), que usa os conhecimentos do médico Dennet Norton (Gary Oldman), para introduzir o uso de robôs no combate à violência urbana da Detroit de 2028. O maior defensor do uso dessa tecnologia é o apresentador Pat Novak (Samuel L. Jackson), uma espécie de José Datena americano.

Em seu longa de estreia, o roteirista Joshua Zetumer entrega um trabalho mais do que satisfatório para a reinvenção da franquia. Ele é hábil em contornar as limitações da censura (desnecessárias, principalmente quando o original é marcado pela sua violência gráfica), ao colocar o protagonista para enfrentar robôs em seus treinamentos ou substituir a arma convencional por uma arma de choque, com um resultado tão impressionante quanto. Além disso, ele espalha várias referências e easter eggs do original por toda a projeção, mas de forma orgânica, sem jamais permitir que isso chame mais atenção do que a trama principal.

david_arrais_robocop_2014_02.2014.03.10Igualmente competente em sua “estreia” (em terras ianques), surge José Padilha. O diretor se mostra seguro na direção, construindo boas cenas de ação, como a brilhante cena inicial, o confronto do Robocop com os ED-209 ou durante uma batida em um laboratório clandestino de drogas. Há até espaço para brindar os espectadores brasileiros em um interrogatório que lembra as “técnicas” do Capitão Nascimento.

O espetáculo técnico do filme é indiscutível. Desde a evolução dos mecanismos, veículos e programas do Robocop (mostrado em seu nível inicial numa cena profundamente impactante), ao design dos droides e demais equipamentos tecnológicos refletem um futuro bastante realista. Da mesma forma, os efeitos sonoros conferem peso e credibilidade em diversos momentos, como nos primeiros movimentos do robô e os vários tiroteios e explosões.

A montagem imprime o ritmo necessário tanto às cenas de ação quanto às cenas mais dramáticas, especialmente a primeira visita de Murphy à sua casa ou a investigação que leva o herói ao paradeiro daqueles que tentaram matá-lo.

Infelizmente algo que não ficou à altura dos aspectos audiovisuais foi a construção dos vilões. Apesar de ser uma ideia interessante fazer do vilão uma espécie de Steve Jobs do futuro (a caracterização de Michael Keaton é visivelmente inspirada no empreendedor, desde o figurino à língua presa e postura nas apresentações), Sellars não tem um arco dramático ou motivações bem definidas, especialmente no desfecho do terceiro ato. E Mattox (Jackie Earle Haley), apesar de ameaçador é demasiadamente caricato.

david_arrais_robocop_2014_03.2014.03.10Gary Oldman oferece a qualidade habitual como o Dr. Dennet, enquanto Samuel L. Jackson está completamente à vontade como o extremista Pat Novak (sua cena final é impagável). Abbie Cornish tem uma atuação apenas correta como a esposa do protagonista.

Felizmente o maior acerto do elenco é o protagonista. Desde a escolha dos candidatos ao “programa”, seu arco dramático é definido e bem desenvolvido. Joel Kinnaman passa por todas as fases, indo de homem à máquina e voltando a ser homem, de forma crível e coerente.

José Padilha conseguiu entrar pela porta da frente em Hollywood, com um filme que respeita seu material original mas que, ao mesmo tempo, possui personalidade bastante para angariar novos fãs e abrir caminho para uma promissora franquia. Além disso, ele consegue ir fundo em críticas à sociedade e política externa americanas e também nas questões filosóficas inerentes à fusão homem/máquina. Ele conduz até um sutil subtexto sobre a hipocrisia americana quanto às minorias, quando seu apresentador questiona a “robofobia” americana.

david_arrais_robocop_2014_04.2014.03.10Nota: 8.0/10

Sugestões: Se você gostou, assista ao Robocop original, de 1987.