Ela: Uma análise do filme


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david_arrais_ela_2013_01.2014.02.24Romance? Melancolia? Isso é coisa que interessa a nerd? E se acrescentarmos Inteligência Artificial, tecnologia de ponta, Sistemas Operacionais intuitivos? Ah, Agora sim! Vamos ver do que se trata?

Spike Jonze ganhou notoriedade na virada do século com os filmes Natureza Quase Humana e Quero Ser John Malkovich. Nestas obras, ele, ao lado do roteirista e parceiro Charlie Kaufman, abordava temas profundos sobre a psique humana, sempre com fortes tons de melancolia. Agora, depois de um hiato de quatro anos sem dirigir longas de ficção, o diretor volta à cena, também como roteirista, do inusitado (para quem não conhece seus trabalhos anteriores) Ela.

Ela conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um homem que, em um futuro não muito distante, trabalha na empresa “cartasescritasamao.com”, uma empresa especializada em escrever cartas pessoais. Apesar de ser um dos melhores escritores, capaz de expressar com palavras os mais íntimos sentimentos alheios, Theo tem problemas de relacionamentos, especialmente depois de se separar de sua esposa, Catherine (Rooney Mara). Seus únicos amigos são Amy (Amy Adams) e Charles (Matt Letscher). Porém, depois de conhecer Samantha, um revolucionário Sistema Operacional (com a voz de Scarlett Johansson) dotado de avançada inteligência artificial, Theo vê sua vida mudar completamente. O que deveria ser uma interação usuário/máquina começa a se transformar em uma relação íntima e profundamente pessoal.

E nessa relação está a maior força do script de Jonze. À medida que o protagonista e sua confidente se conhecem e começam a descobrir características próprias, as perguntas começam a pipocar na cabeça do espectador: O que torna um sentimento, ou uma relação, real? O que espera-se alcançar em uma relação? Se duas pessoas são felizes nessa relação, sem prejudicar ninguém, quem tem o direito de interferir? Se um programa é capaz de aprender leis e normas e a se comportar como uma pessoa, será ele também capaz de amar?

david_arrais_ela_2013_02.2014.02.24Além dessas reflexões, os arcos dramáticos de Theo e Samantha são bem desenvolvidos, o que resulta em personagens tridimensionais e profundos. Theo passa da infelicidade por seu divórcio à plenitude tão comum em namoros que estão no começo, porém, sem perder sua personalidade, naturalmente melancólica e pessimista.

Ela: Um filme para refletir sobre questões existenciais de uma forma bem atual

Samantha passa por um desenvolvimento curioso, já que se trata de um programa de computador. Ela tem dúvidas sobre seus sentimentos, sente ciúmes, raiva, inveja, saudades, e chega a interagir com outras pessoas por conta própria e até mesmo com outros Sistemas Operacionais. É comovente sua alegria quando percebe que está aprendendo algo novo, e até mesmo criando algo, como músicas (a bela trilha sonora do filme é “composta” por Samantha) ou desenhos.

Além disso, Jonze cria aquele mundo de forma que, sutilmente, percebemos que relacionamentos entre pessoas e seus sistemas operacionais são coisas comuns, ainda que não aceitas pela maioria (um interessante paralelo com o preconceito que existe em nossa sociedade com casais “diferentes”). Além disso, a Inteligência Artificial também é uma realidade comum na vida das pessoas, como o personagem de videogame, desbocado e raivoso, com quem Theo sempre joga (dublado pelo próprio diretor).

Afora a atmosfera criada pelos personagens e suas relações, o mundo em que se passa a história tem sua personalidade constantemente ligada ao estado de espírito de Theo. Sempre que ele está em sua zona de conforto, como no escritório, em casa, ou mesmo em um encontro, a tela é preenchida por cores vibrantes, como laranja, rosa, vermelho e amarelo. O único personagem a seu redor que está diferente é seu chefe, sempre com roupas pretas e cinzas. No entanto, quando ele está desconfortável, como com insônia no quarto, imediatamente a paleta muda para cores frias e neutras, além de cinza e preto, com o padrão de cores mantendo-se apenas no figurino de Theo.

david_arrais_ela_2013_03.2014.02.24Se visualmente o filme é um espetáculo a parte, as atuações não deixam por menos. Amy Adams tem uma performance mais cativante e profunda com 10 minutos em tela do que em todas as duas horas de atuação em Trapaça. O mesmo ocorre com Scarlett Johansson, que realiza um dos melhores trabalhos de sua carreira, apenas com sua voz. As nuances dos sentimentos de Samantha estão presentes em cada palavra, suspiro e silêncio.

No entanto, como fica visível desde a primeira cena mostrada, o grande destaque é Joaquin Phoenix. Sua construção de personagem é perfeita da primeira à última cena. Seja a confusão em sua mente causada por um encontro armado por Samantha, a felicidade genuína em suas lembranças com Catherine ou o ciúme e desconforto causado por Alan Watts (melhor não dizer de quem se trata), tudo é refletido não apenas em suas falas ou rosto, mas em toda a sua expressão corporal.

A direção de Jonze é eficiente como de costume, apesar de elevar a melancolia que permeia o longa a um nível exagerado no terceiro ato. Dessa forma, o diretor retorna aos Cinemas em grande estilo, com uma obra repleta de elementos recorrentes em sua filmografia, além de levantar discussões filosóficas e existencialistas sobre a condição humana e, porque não, sobre o rumo dos avanços tecnológicos.

Nota: 9.0/10

[trailer]

Sugestões: Se você gostou desse filme, assista a Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Quero ser John Malkovich