Análise: O Lobo de Wall Street


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david_arrais_o_lobo_de_wall_street_01.2014.02.05A década de 1980 foi marcada pelo surgimento de uma nova classe social nos Estados Unidos. Os “yuppies”, jovens que se tornavam milionários rapidamente trabalhando no mercado de ações de Wall Street. Esses jovens se auto intitulavam Mestres do Universo, devido à rápida ascensão financeira pelas quais passavam.

O Lobo de Wall Street, dirigido por Martin Scorsese, conta a história de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um dos maiores representantes dos “yuppies”. No entanto, o que tornou a sua história realmente digna de ser mostrada no cinema foi a incrível série de acontecimentos e pessoas que o cercou, desde quando chegou à Nova Iorque até o início da construção do seu império como presidente da Stratton Oakmont.

Desde o início Scorsese deixa claro que não tem intenção de aliviar nada que tenha feito parte da vida de Jordan. Todos os exageros de festas, drogas e mulheres, regados à ostentação e desperdício de dinheiro, são mostrados sem o menor pudor, com um realismo quase constrangedor.

Além dos fatos, a vida frenética de Jordan tem seu reflexo no ritmo do próprio filme. Em suas quase três horas não há um momento sequer em que aconteça algo desnecessário à trama, ou que não tenha ligação direta com o que vem a seguir, sem dar espaço para que o espectador possa recuperar o fôlego. Isso mostra como a parceria de décadas de Scorsese e sua montadora Thelma Schoonmaker está longe de perder a força.

david_arrais_o_lobo_de_wall_street_02.2014.02.05Da mesma forma seguem os demais aspectos técnicos do longa. A fotografia altera as paletas de cores de acordo com o ambiente em que estão, sempre com a ênfase em cores frias em ambientes de trabalho, tanto no interior das empresas ou bancos. Já em momentos mais pessoais de Jordan, como seu iate, sua impressionante mansão (a residência mais cara do mundo à época) ou junto à sua esposa e filhos ocorre um uso maior de cores quentes, como amarelo, vermelho e um pouco de dourado.

A direção de arte tem igual competência, recriando com brilhantismo todas as décadas pelas quais a história passa. Isso fica visível nos figurinos extravagantes dos anos 80, a sofisticação dos anos 90 até a modernidade. Além disso, cada ambiente por onde somos levados é construído com perfeição, desde os cômodos da mansão de Jordan ao interior das empresas por onde ele passou.

Porém, o que realmente chama a atenção é a atuação impecável de cada membro do elenco, desde aqueles com apenas uma ou duas cenas ao trabalho superlativo de Leonardo DiCaprio. Não é exagero dizer que Matthew McConaughey está, em poucos minutos, tão brilhante quanto em todo o Clube de Compras Dallas, naquela que é a melhor cena do filme. Com uma participação relevante, porém tão pequena quanto à de McCounaghey, surge Jean Dujardin, como o ganancioso representante de um banco suíço.

Jonah Hill está surpreendente como o sócio e parceiro de Jordan. Sua construção de personagem, desde os aspectos físicos como os dentes grandes, os óculos exagerados e roupas extravagantes até sua inflexão de voz com uma leve gagueira. Ele também faz uso de seu excelente timing cômico para retratar o temperamento caótico de donnie, alterado pelo abuso constante de drogas, que faz com que o personagem tenha variações de humor intensas, tanto de euforia quanto de fúria. Margot Robbie tem uma participação menor, porém igualmente competente. Ela convence tanto como uma arrebatadora força sexual quanto como a esposa cansada dos abusos e exageros do marido.

david_arrais_o_lobo_de_wall_street_03.2014.02.05E isso nos leva ao trabalho impecável, como de costume, de Leonardo DiCaprio. Aqui o ator consegue extrapolar mais uma faceta, não tanto utilizada: a da comédia. Suas reações ao sofrer o mais antigo truque da comédia, um copo de água na cara, são impagáveis. Porém, quando necessário, ele consegue transmitir todo o carisma que levou Jordan à sua posição de executivo, como nos discursos motivacionais antes do início de um dia de operações na empresa. E atinge o ápice de sua performance na cena em que compartilha um vidro de drogas vencidas com seu companheiro Donnie.

O roteiro consegue amarrar uma grande quantidade de personagens de forma elegante e didática, mas sempre com respeito a inteligência do público. Além disso, consegue estabelecer a personalidade dos personagens em poucas cenas, como quando há uma verdadeira reunião, regada a drogas e bebidas, para definir uma absurda festa que envolvia arremesso de anões com a mesma dedicação e discursos inflamados que os executivos da Oakmont discute os rumos financeiros da empresa.

E para comandar todo o trabalho, Scorsese prova, mais uma vez, porque é um dos diretores americanos mais importantes da história do Cinema. Ele recicla com grande desenvoltura elementos recorrentes de sua filmografia: narração em off do protagonista, planos sequência a rodo, exercícios de metalinguagem em que o protagonista conversa com o público, algumas vezes até rompendo a quarta parede (em um dia importante de sua empresa, Jordan surge andando e conversando com o público da mesma forma da cena final de Os Bons Companheiros) e a inacreditável trilha sonora, com músicas incidentais que vão de Lemonheads a Kanye West e Billy Joel.

Com isso, Martin Scorsese consegue mais uma vez construir uma obra-prima, que cabe nas primeiras posições de sua mais do que consagrada carreira, baseada em uma história real inusitada e agressivamente extravagante.

Nota: 10/10